Glauber //
Acorda, acorda!
Deus e o Diabo na terra do sol
ainda caminham em preto e branco //
Francamente gostaria de ter tomado uma biritinha com um escritor baiano, que afirmo apenas ter possuído penugem abaixo das narinas que naturalmente eram duas na tentativa de obter explicações desaceleradas e definitivas sobre alguns fatos que não considero de total irrelevância.
...Começaria argüindo o porquê do cafezinho com bolo de fubá fazer mais falta que lagosta. À Tardinha, por aqui, não costuma ter crustáceo e acredito ser assim em quase todas as regiões. No meu senso pessoal, a resposta foi quase unânime. Ou será que somente ando com pé descalço? Ou não seria a conversa, antecessora ao hábito alimentar, propositora da mesa redonda nossa de toda santa refeição...
Seriam esclarecimentos em tempo real, previsíveis e aumentados por monóculo de privilegiado critério. Perdurariam no meu HD pessoal. Transcreveria teorias de monte.
Quem sabe talvez, relatasse o entrevistado que a tradição dali adorna a pressa, em crítica profunda e contumaz. O que é sua lentidão... Conheço essa praia... Confundo no... Fundo...
Atingir os avanços tecnológicos e é percorrer um caminho sem fim. Amanhã tudo mudou. Tudo, tudo. Ou melhor, depois que o caríssimo leitor terminar por finalmente compreender que o verbo avançou no tempo do relógio digital e já foi!... Acabou o manual...
Aos apreciadores da literatura de cordel segue as principais fontes sobre o estilo. No Rio de Janeiro a Livraria Graúna, na feira de são Cristóvão. A Academia Brasileira de Literatura de Cordel
A SEGUNDA PÁGINA // Quando por fim sentou a mesa da estalagem o rapaz imediatamente abriu o livro com uma delicadeza ímpar... Diziam que era muito velho o escritor. E que era difícil segurar a bengala que apoiava; falar e acordar. E duvidaram alguns que ainda pudesse manipular frases e palavras e letras que viessem a refazer qualquer argumento. E continuava a primeira página: escrevi e não disse nada a ninguém... Seguia dizendo que durante duas semanas esteve sentado no canto parado daquele lugar. Sentiu o frio enrijecer as vértebras e o restante dos ossos. Chorou cada sonho realizado durante uma vida quase inteira. E os que não aconteceram também. Talvez porque não devessem... Ter acontecido... Então por este caminho haviam sido realizados sim! Os amores que carregara ao longo não envelheceram pois nunca mais havia visto ninguém. Nenhuma delas!... Percebessem o filme da sua alma veriam um jardim cheio moçoilas correndo sem roupa pelos cantos da tela... Enquanto chorava entendia que escorria dos olhos a água mais pura e salgada do oceano profundo das suas estórias. Aquela que desenhava transparente sem o julgamento de um motivo qualquer. Todo homem chora algum dia. Por uma razão sem dono todos choram! E perdoando nossas lágrimas isentamos erros de culpa... Amaria cada uma daquelas mulheres de novo. E novamente sonharia um devaneio antigo e choraria e riria como antes. Como renascer para num dia breve adormecer em paz. Ou acordar novamente vestido de filho, criança ou coisa parecida... Olhou silencioso, o moço... Depois gesticulou novamente... Apontou o lápis e a data... E começou a segunda página...
Favelinha de Papelão Um release // Conheço um sujeito tição. Um armário! Tem cor de piche e coração largo. Era jogador de futebol, depois, virou artista. Refazia o que os outros jogavam fora, detalhando estruturas de papelão. Pitoresco um cara daquelas medidas trabalhar com tamanha delicadeza. Aprendera o ofício como brincadeira de pai. Criar objetos, casas, cidades inteiras, através do que seria dispensado. Reciclagem? Não! Era a substituição da forma original, por outra. A miniaturização do contorno. Não seria alumínio prensado, mas o endereço que aquela forma pudesse sugerir. Fogão de botão, escada de tampinha, fio de barbante. Sem falar das aranhas, fundamentais nos processos do acabamento...
Bom filho de Xangô, mora numa casinha cheia de plantas e conhece bem seus fundamentos. Sempre fora justa e merecida o que a vida aprontava. Era generoso e professorava suas descobertas. Estivera na Alemanha, França, perto daqui e longe à beça.
Certo dia, durante uma oficina, conheceu um menino que tinha apelido: para nós, Fininho. Garoto do movimento, prostrado sobre a laje, de sol a sol, armado para defender o ponto, ligado pra não esquecer da hora. Certo dia; de um dia incerto, perdeu os fios do ponteiro e adormeceu. Deu bobeira! Acordou com uma bala de fuzil atravessando a perna. Dali pro xadrez, fiança estipulada. Não tinha dinheiro não, dizia. Se ficasse devedor nunca mais sairia dessa perdição. Só de asas. Ou pro fundo da cova.
Nove meses depois, bate na porta de muleta, e o quilombola, com faro de cachorro velho, não poupava palavras; - Tu tá na lama, etc e tal. Ex – detento, não tem curso superior. Se quiser, aqui tem teto e prato de comida. Me ajuda no trabalho que a gente divide o ganho. Tu vai aprender a ser artista e monitorar os meninos nas oficinas...
Procurou a mãe de santo junto com o garoto. Senhora pequena, de olhos tortos, quase cegos. Morava na ladeira e enxergava com as lentes de Deus. Seria dela a explicação. Era paga de outra vida. E Palavra pra Xangô é coisa muito séria. E isso não se discute.
Soube depois que o negão fizera a produção da abertura de uma novela das oito. A favelinha de papelão ganhava o mundo. E o menino franzino, aluno dedicado, que batera na porta e já não usava, binárias muletas, começou suas micro construções. Primeiro uma favelinha, e depois outra e outra...
Fora para a grande São Paulo com a sua comunidade de papelão. Sábio aprendiz! A grande capital também se curvara aos pés que caminharam na cadeia e queimaram sola em laje de morro brabo.
Todos eles têm o meu respeito. E isso é coisa de homem, e não é pouco! Xangô, Trono de uma justiça divina, com certeza se orgulha desse filho...
Fininho certa vez me falara de suas duas meninas. Queria uma vida melhor para elas. Duvido que não, meu amigo. E chorei lágrimas de quem também morreu de orgulho... A vida ficou melhor e o menino crescido, que ainda responde pela alcunha magra, passou pelo catálogo do MASP... Também “num” é pouca coisa não...